Publicações arquivadas sob Nem te conto!

Ele não veio de herança, não mora em terra de reis e nem precisa provar nada a ninguém, mas a possibilidade de encontrar um ogro para transformar em rato pareceu uma idéia bem interessante. Tratou então de providenciar suas próprias botas, azuis porque é muito antenado, mas cadê o tal do ogro que não vem? Por via das dúvidas ele permanece atento à campainha.
22/06/2008 às 14:30
Paula Schuabb

Tinha por ele um amor inexplicável, desses de pensar a cada instante e de um querer sem fim. Gostava de observá-lo. Examinar as sobrancelhas e as mãos. Catalogar cada um dos seus gestos. Associá-los a sentimentos e surpreender-se a cada nova expressão. Era amor tão grande que o soterraria. Vez por outra se pegava imaginando como seria o dia em que deixaria escapar aquilo que nunca haveria de lhe dizer. Imaginava também as possíveis reações suas diante do indizível, os pequenos momentos de tensão na espera da resposta e a tão previsível quanto necessária recíproca verdadeira. Bochechas coradas e o beijo. Sempre o beijo no final. Platõnicos parecem ser incrivelmente influenciados por filmes hollywoodianos e preferem que tudo culmine com o beijo. Pelo menos com ela era assim.
Caminhava em suas idas e vindas acompanhada dos pensamentos nele e já não mais sabia viver se não assim. Enquanto pessoas ao seu lado liam revistas ou jornais, ela conversava com ele, conhecia sua família, dava rizadas e recebia conselhos. Iam sentados no banco do metrô lotado, quando ao seu lado ele de fato se sentou. A conversa entre eles parou para que ela o cumprimentasse, muito pálida, coitada! Há pouco conversavam tão à vontade e agora não sabia o que lhe dizer. Sabia porém o que não dizer e não disse. Trocaram amenidades e tão logo ele desceu em sua estação, ela seguiu aliviada. Já estava morrendo de saudades dele e não via a hora de voltarem a conversar.
27/01/2008 às 15:37
Paula Schuabb
O santo, que é de barro, encontrou a carne, moça fraca. Papo vai, papo vem, se conheceram. A carne descobriu ser ele encantadoramente pervertido e do alto da sua fraqueza, de cabeça se jogou. O santo, paradinho estava, a deixou cair em seus braços. O tórrido romance teria ido além, muito adiante, não tivesse nascido já tão frágil. Uma noite, ao ver a carne desfalecida ao seu lado, o santo teve um estalo e se quebrou.
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Caro Millôr, a idéia era ser do nível dos seus Contos Fabulosos, mas fica aqui o registro, válido pela simples intenção.
09/01/2008 às 08:59
Paula Schuabb
Eu converso com as pessoas no ônibus do metrô. Elas não sabem, mas participo de seus papos ao telefone, tiro dúvidas e ouço seus lamentos.
A moça loira de cabelos bem cuidados, sentada ao meu lado, não parece feliz. Aliás, não são os cabelos os únicos bem cuidados. Pele, unhas, roupas e acessórios formam um conjunto de harmonia estética impressionante que os padrões vigentes não ousariam criticar. Mas ela não está feliz e me pergunto se estaria preocupada com algum aspecto prestes a tirá-la deste equilíbrio estético tão importante.
Um engarrafamento permite elocubrações impressionantes e de repente me pego imaginando o cérebro (a massa cinzenta mesmo!) de uma pessoa adepta do culto ao corpo sobre todas as coisas. O tônus muscular é invejável, mas e o tônus mental? Vixe, como é estranha a imagem de um cérebro flácido, tomado de estrias e muita, muita celulite.
13/12/2007 às 11:45
Paula Schuabb