É o fim. 1058

Platônicos anônimos

27/01/2008 às 15:37 Paula Schuabb  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 10038

umvsoutro - umvsoutro

Tinha por ele um amor inexplicável, desses de pensar a cada instante e de um querer sem fim. Gostava de observá-lo. Examinar as sobrancelhas e as mãos. Catalogar cada um dos seus gestos. Associá-los a sentimentos e surpreender-se a cada nova expressão. Era amor tão grande que o soterraria. Vez por outra se pegava imaginando como seria o dia em que deixaria escapar aquilo que nunca haveria de lhe dizer. Imaginava também as possíveis reações suas diante do indizível, os pequenos momentos de tensão na espera da resposta e a tão previsível quanto necessária recíproca verdadeira. Bochechas coradas e o beijo. Sempre o beijo no final. Platõnicos parecem ser incrivelmente influenciados por filmes hollywoodianos e preferem que tudo culmine com o beijo. Pelo menos com ela era assim.

Caminhava em suas idas e vindas acompanhada dos pensamentos nele e já não mais sabia viver se não assim. Enquanto pessoas ao seu lado liam revistas ou jornais, ela conversava com ele, conhecia sua família, dava rizadas e recebia conselhos. Iam sentados no banco do metrô lotado, quando ao seu lado ele de fato se sentou. A conversa entre eles parou para que ela o cumprimentasse, muito pálida, coitada! Há pouco conversavam tão à vontade e agora não sabia o que lhe dizer. Sabia porém o que não dizer e não disse. Trocaram amenidades e tão logo ele desceu em sua estação, ela seguiu aliviada. Já estava morrendo de saudades dele e não via a hora de voltarem a conversar.

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2 Comentários Faça seu próprio

  • 1. pedro paulo  |  15 de Abril de 2008 às 16:19

    lindo texto.
    delicia poder, meio que sem querer,
    em meio ao dia chuvoso aqui de são paulo,
    ser levado pra dentro de um metrô tão rico,
    que pelo que pude perceber está no rio,
    mas poderia estar em qualquer outro lugar…
    vou voltar sempre e ver se pego mais uma carona
    aqui em são paulo destes ares do rio de janeiro.

  • 2. Paula Schuabb  |  16 de Abril de 2008 às 08:10

    É engraçado pensar no metrô como um lugar poético…
    Obrigada pela visita!

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